Saturday, April 21, 2007

Simples

Ouvi a vida sussurrando
os passos na rua escura
ouvi a prece derramada
os pulsos nos passos na estrada
ouvi a voz muda dos pulos
impulsos passados e nulos.

O frio embeleza a minha solidão
E eu já não me sinto sozinha

O futuro parece cristalizado
como se o final feliz fosse inevitável
orquestras
aplausos

A noite veio calma
a vida veio rasa
e tudo que me arrasa
parece tão ínfimo agora

a noite veio calma
e não há nada que me tire essa paz
no horizonte as luzes não existem
as luzes estão lá mas não enxergo
só sinto a paz que proporcionam
só é a medicina alternativa
só é uma opção de vida

O tempo passando nas nuvens de algodão
O tempo vai parando nos cabelos brancos de meu avô
ele vai caminhando, lentamente vai me contando
como foi, como é...
e eu imagino como será daqui pra frente
agora não temos mais casa
estranhos moram na casa
clientes entram na casa
e no meu quarto de amores
onde eu já fui artista
nossa casa de terrores
hoje é sala de dentista

as músicas ainda são densas
mas não contam já de antes
a saudade que senti
sempre foi do que virá
a saudade que eu sinto
é a falta de mim

garota, menina, graciosa
ela anda por aqui
não queria ter que lembrar
da sua doce alegria
é difícil encarar seus olhos
daquela irritante esperança
ela nunca cessa de esperar
nunca se deixa enganar
pelos outros que desistem
pelos outros que insistem
em dizer que já não dá...
ela fica aqui dançando
com sorriso tão perdido
a garota está sozinha
criança chorando num canto
no fim do quarto minguante
na míngua da própria aflição
quem é que cuidou dela?

pra onde foram seus irmãos?
há algo que cuida dela
tem mais sorte que juízo
nunca sai no prejuízo
porque aprendeu a aproveitar
cada momento infortúnio
que também a faz chorar

a menina senta e chora
reza alto pra seu Deus
a menina esquece a Deusa
a Deusa que a embalou
engendrou-a nas artes do amor
a fez sentir abundância
fez sentir sua própria semente

a terra que a cobre
soterra seus amores
com a seiva da vida respira
pobre seiva da qual se alimenta

o verde das folhas lhe arde
entorpece-lhe o verde da erva
o verde dos olhos lacrimeja
a doce desilusão

a desilusão é bonita
depois que sente esse gosto
em vez de doce amargo fica
mais poema, conclusão

As tardes tardias
caem rápido
enegrecem algum dia produtivo
ela que não planta nada
prefere a noite
pra ficar parada
olhando as estrelas que ela não entende
mas as estrelas entendem a menina

Não estava escrito nas estrelas
as estrelas não escrevem
as estrelas são geniosas
não pedem permissão
as estrelas escolhem pessoas
um olhar, um coração
e aqueles que foram escolhidos
terão estrelas no olhar
terão estrelas nas veias
terão estrelas brilhando
em tudo o que por ventura fizerem

e ela que não faz nada
se lembra que é uma estrela
estrela não brilha sozinha
reflete a luz dos astros
e precisa do sol...

está frio
nada cresce
o sol, violento
me esquece
tudo o que o sol aqueceu
queimou por não saber amar

o que você conseguiu?
nada ainda, ela responde
e o que está procurando?
sigo o caminho do sol
mas só o vejo no poente
sem sol fico doente

as águas que escorrem das pedras
lavam as minhas feridas
o fogo que acende em meu peito
por vezes também arde em mim
assim não morro de frio
porque tenho um desvario
um desejo que corrói
mas me mantém aquecida
o fogo secreto me arde
corro pro sol, mas é tarde

corpo de sol mas é tudo
há sangue escorrendo na terra
a terra que agora é vermelha
há fogo ardendo na pele

deitada na terra vermelha
vermelho do fogo da pele
a boca da moça é vermelha
e o corpo é branco brilhante
o brilho da lua no corpo
o brilho da estrela no olhar
o corpo estremece de medo
faísca da estrela do brilho
o amor bem sabe é doído
prazer bem sabe é extremo
ela vai morrer de amor
ardendo e minguando
aquilo que é delicado
com a força vai morrendo pela terra
a semente germinando o grave sulco
a carne pulsa de prazer, de sentimento
o amor renasce se deságua em próprio ventre
o amor insulta, vem rápido e violento
o amor arde, fogo santo, purifica
toda a água de amor é sagrada
todo ato de amor é suicídio
recebe em si o próprio amor nascido
e morre ao fim do tempo a descansar

e agora há o que precisar
novas preces para o sol a aquecer
tudo é novo, tudo é pronto pra nascer
o branco vira verde vira azul
e o sol a fere um pouco no suor

“quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã”
Carlos Drummond de Andrade

Monday, April 16, 2007

Inconfessável

Recuso-me a fechar as janelas,
hoje que o céu se enfureceu comigo
e fez mil tempestades num só copo d'água
gotejando até mesmo dentro, em meu abrigo

tu que me lês
eu analfabeta de mim
recuso-me a olhar no espelho
pois sempre o que reflito é o que não vejo
sou cega pra mim mesma
apenas me despejo
recuso-me a me ouvir lá de fora de mim mesma

essa janela aberta nessa noite que esfria
paradoxos indecifráveis que me abafaram no verão
eu me tranquei e pensei "perdi a chave"
mas descobri o furto do hóspede indiscreto
fingia rastejar e ser anfíbio
mas tinha o sangue quente desde o início

vinhas sempre transmutado em outros
como um camaleão, de cor em cor
mas para mim - que sou incapaz de ler o externo -
era sempre o mesmo e sempre igual que eu encontrava
brincavas de jogos de espelho, mas eu intuía o óbvio
aquele teu veneno verde não poderia ser para mim

não eras o sapinho pela boca
um príncipe indeciso e arrependido
quantos segredos transmitidos pelas tuas águas
bebi uma a uma, mas o que eu queria era o teu sangue

o sangue que eu encontrei por acaso
borbulhando numa temperatura à minha equivalente

eu - que nunca quis te seduzir -
queria apenas me encarar no espelho, seduzida
como nas primeiras vezes em que eu realmente acreditei
pois não tinha aprendido a duvidar do meu termômetro
a tua febre louca que eu curei

ao invés de nos olharmos: reflexo e reflexão
resolvemos tomar da mesma taça a anestesia
e quem diria aquilo que querias
encontrar em outros objetos uma capenga paixão
e do mesmo chão em que deitamos
derramamos as mentirosas faces de uma confissão

kid abelha

caring and sharing
i smile when i close my eyes
to look at your face

i wish you saw me last night
i was walking slowly
feeling each tap of my feet on the ground
i begged for underground
my walking described a lost rythm
from the journey i took each day
due to my willing to see you everyday

when i crossed the crossing line i was lost
stumbling in the stars in disasterous way
waiting for a meeting
confused in my dreamming


in which i was skimming slightly on your sweet skin
feeding you with my honey,
wnating to be your queen bee
the eternal honey
- only furnishment that cannot perish -

abóbora selvagem

tudo é verticalmente triste
ao som de bandolins
ou violinos assassinos

não posso ouvir violas
tudo que é simples me violenta
antes ser sublime do que simples
antes ser incógnita do que escrever um manual de instruções

um sarcasmo
orgamos de conversa
não são janelas da alma abertas

eu pisei no lodo
e chicoteei o espaço
agredindo por não me deixar agredir

de comum acordo
acordo às 7h30 da manhã

mas não há a palavra 'doce'
apenas uma palavra 'não' que séria e culpada
se ensaia pra sair

e nessa valsa triste
indo e vindo deste mundo e outros

enfrentando o mundo
eu assombro e sofro
porque não é possível a todos me compreender

e sendo sempre mais do que se pode suportar
transbordando todos os copos
da incontida prisão da minha solitude

sucumbo novamente ao vício de fingir não estar só
afagando de leve algumas almas de janelas abertas

a única porta por onde entrei
se fecha em culpas e erros

eu que sempre me perdoei
não me delicio com seu sangue em minhas garras
seu sangue é doce e chora

e nunca corres pra mim para que eu te abrigue
te fechas e cultivas a tua solidão
me obrigando a enfrentar a minha, a suave prisão

mas quando vens, tomas o tempo em tuas mãos
e me ofereces tudo
e segurando o líquido do tempo em nossas mãos
vamos derramando as horas lentamente
e com gozo
em todas as coisas que amamos
imagens, palavras, cheiros e toques
trejeitos, desajeitos, gafes e tombos

até a carruagem virar abóbora

porta emperrada

finalmente
compreendo como tu te emperras

mas foi preciso experimentar o sangue
o corte, o bisturi e o enxame
me rebelei de dentro do avesso da colméia

do pó e das cinzas
não renasço hoje

passeio pelo inferno de hades

um rapto, um surto, um susto
um medo, ou ainda,
aquela sensação de quem está sem saída

Tuesday, April 03, 2007

CÍRCULO MILITAR

códigos, símbolos
letras e números
pétalas de flores caindo
estrelas piscando no escuro
no chão a passos lentos
a brisa alimenta os pulmões
com vida

Ombros nus
mechas de cabelo encaracolando
afogam a liberdade que circula e ferve o sangue.
Calor...

O dia acaba e refresca os sentidos obrigatórios,
as placas, os sinais,
os pontos de ônibus iluminados.
Nenhuma estrada ou rua sem saída.
Os cruzamentos, as rotatórias da cidade.
Tudo é preferencial.

Os olhos buscam sedentos -
porém sem expectativas -
aquilo que a alma encontra e a palavra traduz.

Uma cidade de luz
em plena escuridão.
A lua não sou eu.
As rédeas se soltaram.
As imagens se perpetuam na minha solidão.

O foco do meu olhar
celebra tudo o que não posso tocar
e nem quero.

Tudo que toquei
me tocou.

Tudo que possuí
me possuiu.

Pedaços de mim caminham pela rua agora.
Dentro de carros a música com as mãos no volante
descrevem um caminho distante... num instante.

Os meus olhos são fotos focadas,
tiradas e colocadas pra dentro.

Sinto meus órgãos quentes interiormente.
Tudo de mim se escapa:
eu, a leveza do fim do dia,
eu cônscia de uma beleza tardia.

Tudo que eu faria, não fiz, não feriria.
As marcas do fogo não se apagam
cicatriz.
Eu fui, eu sou, eu sendo feliz.
Do que era mudo uma canção rediz...

Friday, March 30, 2007

Marteladas na cabeça

Os ônibus passam e param
e eu não espero mais.
Converso com as árvores em silêncio
um mantra de paz.

As pedras da praça contém passos
e sombras se multiplicam
formando outras formas.

Nada é formatado.
Nenhuma fôrma atada.

Os lenços em que nos amarramos,
os lençóis que nos prenderam
contém o suor e a saliva lasciva.

Eu lembro que estou viva e aviva
minha cabeceira com plásticos flácidos.
Um resto de sabor na língua
à míngua...

E antes que o prazer se extingua
o fato a foto o feito a fita
amarro as marras na marra.
Violento o violino assassino.

No silêncio sinto a melodia
sintonizando um sentimento cético.
Nenhum estado de sítio.
Nenhum súplicio ou simples morte súbita.

Quando se morre à noite
o dia nasce, a claridade assume
a assunção de mais uma mera verdade
que a eternidade muda e emudece.

As vozes, corpos velozes cessam o movimento.
Atento atentado ao pudor.
Torpor lícito de derramado no chão.
A molhidão de um molho incolor.

Incompreendo os sons e os ruídos,
as listas das istas pessoas
que se repelem,
os opostos que se chocam e se tocam
e os traços que atrocidam o indizível.

A minha voz se cala e ainda dita
a ditadura mole e maledicente.
O mal se encolhe a escolher a sina.
O que se assina assassinou o sonho,
o completar comtemplado e incompleto.

Mais uma!
Mais uma vez
de vez.

Thursday, February 08, 2007

desconectados

o carinho que tive por ti
os afagos na alma que senti
eram carinhos em mim e em ti
ao mesmo tempo

teríamos sido uma alma apenas?
almas gêmeas?
como me libertei dessas algemas?
como me sinto livre
se só vejo uma direção?
meu caminho é sempre em frente

quando vou até lugar nenhum
quando corro
quando morro
quando nasço
mas se eu paro
se eu fico
até na minha solidão estou acompanhada
até quando me vejo apartar-me de ti

teria sido uma prisão?
teria eu como escapar?
se até no nada te encontrei
se até na morte, uma solução
se até no escuro
eu grito luz

só me sinto livre
quando proclamo o amor
sinto o vento
o sentimento
a paz

só comigo, em mim, me sinto livre
de uma pressão
uma impressão que o mundo tem de mim

e de ti o que soube foi tão pouco
mas não sinto medo
de partir ao um novo encontro

inesperadamente tudo o que sempre esperei

calar a voz do meu amor
num silêncio
pra que alguém clame pela minha voz
ou a escute por dentro

ainda que desconectados

Wednesday, February 07, 2007

morcego cego luz escuridão

quando no final dos deuses sem fim
me achei sóbria, porém tonta
de uma vertigem que fez velocidade
correr nas minhas veias

quando acordo não é o dia o que vejo
mesmo sem tocar os pés no chão
por causa da gravidade que me falta
a mesma gravidade que me salta
do estômago, nenhuma borboleta

morcegos sugam minhas entranhas
num voar nefasto e tóxico
não sei onde em mim tu te perdes
é o teu nome o que reconheço

pergunto a quem não sei
onde te encontraria
na tempestade a tua ausência
produziu ao meu redor um teu holograma

não me satisfaria pensar em ti
como algo que eu não pudesse tocar
nem com nossos cheiros misturados
nem com nossas almas entrelaçadas

não te pude tocar nenhum dia
dessa viagem rumo ao nada nadarei
meu corpo pouco se movimenta
seria uma morte em vida?
seria um esquecer do que pulsa forte
e doce, teu sorriso, tuas carrancas
tuas palavras que não dizem nada
tua alegria falsamente empostada
para me trazer dias melhores na jornada

o brilho cego que nos ilumina
já não vejo, já não sinto
eu entenderia teu esconderijo escuro
se ele não estivesse no meu ventre

os morcegos que criaste
desenham círculos nas minhas vísceras
ando te encontrando no porão do mundo
minhas lembranças de ti não são sadias
e agora me pergunto se as lembranças são futuras
agora me questiono se as imagens não são tuas

de tudo o que fica é a confusão
a solidão não me assusta
mas os monstros enlamaçados
não sabem pra que existem
então me torturam com um silêncio
apesar de se agitarem cegos
atingindo as paredes internas de mim

quando a luz tornar a dar sentido
terei vencido os teus morcegos tortos
eles estarão mortos
e eu os iluminarei e eliminarei
com um ponto fixo do meu pensamento

a razão não tomou estas palavras
apenas as palavras vagaram sozinhas
que entre o mundo, o meu corpo e o que escondo
é apenas entregar o corpo ao mar
que de ondas salgadas e quentes
vai me levar ao fundo do meu sonho são

as preces vão me fazer voltar a respirar
e as borboletas brancas vão reviver o meu jardim
eu espero, paro o tempo e ele se esvai
que alguém também esteja esperando por mim!

Friday, January 26, 2007

imagem molhada

Eu gosto de reconhecer nos olhos
Aquilo que adivinho por dentro
um brilho de céu

E quando imagens se formam
Eu vejo alguém sentado no chão
Cabisbaixo se procurando em uma poça de lama
Um semblante sério
Uma tristeza seca que não chora
Os pingos da chuva que caem na poça
desaguam o choro de dentro

as lágrimas não caem dele
que pensa que ainda está sozinho
é o céu que chora por ele
molhando pra lembrar o que ele esqueceu

e a imagem do seu rosto triste
começa a ficar mais turva ainda
não se reconhece na imagem que mostra ao mundo
assim entende que só há um jeito de ser quem é

baixar a guarda
se despir da armadura

tocar o sublime
ou cometer um crime?
quem entenderia?

seja qual for a pergunta
a resposta vem perfeitamente clara:
a imagem dela enquanto ria

um beijo-flor

Eu sei que hoje
só um beijo seu
me traria a paz

Eu vejo o seu sorriso
o seu encanto
distante de mim
perto de outras flores

eu deixo o jardim secar
regando com o meu olhar molhado

hoje preciso lembrar
dos teus passos pela casa
me chamando

hoje preciso lembrar
do cheiro, da flor, do perfume

hoje preciso amar
e esquecer o meu ciúme

eu sinto falta do brilho dos teus olhos
eu sinto falta de deitar no teu braço

sinto falta de mim
radiante exibindo pétalas de alegria

sinto falta do teu carinho
do nosso ninho
do nosso amor

então por favor
entenda o meu pesar
estenda a tua mão pra me alegrar

e lembre também como era bom
ponha nossas músicas no som

só alguns minutos pra lembrar
pra encher o coração de sorrisos
por ter o dom mais precioso: amar

e sinta que aqui existe alguém
pronta pra te abraçar
assim que você voltar

Thursday, December 28, 2006

Sem norte

Vaguei noites vazias em selvas escuras
Na mão a minha bússola: você
Meu corpo cansado, moído, quebrado
Aturava os castigos do caminho
Sabendo esperar você

No seu jeito de falar
Ouço o tilintar do cristal quebrando

Meu desejo era maior
Segui ao seu encontro

E a saudade e a solidão da vida minha
Me fez de novo sua até suar

De um salto, um susto, um cisco nos seus olhos
Senti que algo estava por findar

Com os pequenos cacos que sobraram
Talhou a minha pele de lamúrias

Do meu silêncio fez-se a escuridão
Tomou a minha alma por luxúria

04/11/2006

Sunday, December 24, 2006

sóbrios

eu estive sóbria por alguns dias
e o que posso dizer sobre isso?
que senti falta do conhaque puro baixando pela goela?
que senti falta do som alto saindo pela goela?
a plenos pulmões
um desamor completo

a chatice do dia a dia me desespera
eu preferia estar dopada
eu preferia estar adoidada
eu preferia que você tivesse gozado por toda a casa
como fez um dia

seus "eu te amo"
vem acompanhados de atitudes de fuga
não se entrega
e eu com a maior paciência do mundo

me ligue quando estiver sóbrio de todo esse movimento de fuga
nossa vida não é uma ópera

invenções

Você não existe.
Só existe quando está perto de mim.
Eu invento você, seus passos, suas falas.

Todos entram aqui e saem com respostas.
E quem me dá as respostas?
Talvez eu não esteja fazendo as perguntas certas.

Você tenta me indicar caminhos
Mas custo a acreditar na viabilidade de segui-los.

Um homem que inventa uma mulher.
Apenas o sexo foi real.
Todo o resto foi invenção das falas.
Apenas o gozo foi espontâneo.
Todo o resto foi pré-programado.


E assim não saio daqui para a rua.
As minhas necessidades são atendidas
como serviço de entrega.

Amor venha...
e o amor vem.

Amor fique...
e o amor fica.

As idéias desconexas podem até fazer sentido
vez ou outra.

Este é um espaço mágico de criação.
eu estou inventando esse amor.
sempre a cabeça
nunca o coração

cabeça e sexo
e eu crio o amor.

tudo para nós
é sempre num lugar lá fora.
é vento, verde, sol
mas a gente não sai daqui

porque não sabemos inventar verdades
você é apenas uma pessoa
que me permite falar na primeira pessoa do plural.
Você é a minha primeira pessoa do plural.

ninguém entende o que escrevo, o que penso, o que invento
porque sempre estou criando coisas novas

e posso até inventar que sei fazer pão
e posso até inventar que tenho um filho

e posso até inventar uma nova cara
um novo cabelo
um novo elo

eu invento tudo
crio tudo

e me sinto sozinha depois de tudo.




eu sei que vc escreve a mão
e eu inventei que não te amo
inventei que não te quero



eu inventei a doida
e todos acreditam

eu não quero mais inventar nada
é isso mesmo
tenho que escutar mais
ficar mais tempo muda

vou ficar imóvel
esperando você me tocar

e não vou dizer mais nada sobre o que sinto
vou esperar pra sentir quando você estiver aqui

super-heróis

amanheceu às 3h da tarde

antes disso você me via dormir
velava meu sono
é disso que preciso
de você zelando por mim
seu carinho
entrar no seu mundo de mansinho
colocando a imensidão no bolso da bermuda
e porta adentro nos despindo de tudo
apenas os sonhos
apenas os brilhos
dos olhos
dos planetas a nos alimentar
das fagulhas da nossa fogueira santa
por que me queima?
quer me purificar?

mal sabe você.. que o que você me faz
é me fazer voltar
voltar a ser o que eu era
antes de estragarem toda minha pureza
antes de eu renunciar à minha beleza
antes de eu matar todas minhas certezas

eu serei
o que sou
e sempre fui

pra você
se você quiser

se tentar entender minhas palavras
vai se perder no labirinto

mas se tocar minhas verdades com a palma da mão
vai sentir tudo como o que realmente são

você está abrindo uma gestalt em que o essencial salta aos olhos
toda essa gosma em volta
é por onde vou nadar
até chegar a você

eu ainda não desisti
isso é bobagem
só estou aqui pra receber
é a sua hora de quebrar a casca
de sair da barriga da abelha

é a sua hora de correr pra mim
com a velocidade da luz
pra explodir no meu corpo
com o líquido proibido

meu desejo por você está aqui

não quero nem dizer que te amo
meu 'eu te amo' hoje é carinho, um afago no ego

o dia que eu disser eu te amo
pra confirmar o que sou no que você é
aí sim
vou dizer com lágrimas nos olhos
eu desde a primeira noite
me joguei em você

e não me arrependo
mas o dia a dia está me matando
espero que me entenda

preciso de Baco
pra que meu amor me tome

e se derrame das minhas pernas nas tuas
escorrendo pra você sentir

eu quero sentir teu corpo
quente
pulsando
seu coração batendo

você deixou desejo

eu apenas rio das suas restrições
acho que já percebeu que pra mim elas são nada

apenas você não conseguiu deixá-las pra fora daqui

quando vai perceber que aqui é o lugar de deixar as máscaras?
de fazer sumir as fantasias de super-heróis?

aqui é o lugar pra ser o super-herói
não a roupa
e sim o ser

Wednesday, December 13, 2006

meus três últimos cigarros




meus três últimos cigarros

não posso mentir que guardei pro final
os 3 últimos cigarros ficaram guardados

no fundo do armário
na prateleira de trás

eu tentei escondê-los
eu tentei não fumá-los agora

mas precisei deles

o primeiro fumei por desespero

por solidão

por não saber o que fazer

e coloquei sua bituca em pé pra que apagasse sozinho longe de mim

o segundo fumei por impulso

por conforto,

pra tentar fazer durar,

esticar o tempo que fica flácido

e nem dá mais vontade de fumar

o terceiro não fumei ainda

porque o segundo está apagando entre os meus dedos enquanto escrevo

o segundo se apagou

que alívio não precisar sentir coisa chata

pro terceiro eu quero uma lágrima

que está seca por causa da fumaça imaginária que está saindo de mim
pro terceiro só teve um suspiro
uma vontade de não queimá-lo

pro terceiro um numero mágico
uma forma perfeita
três ângulos

pro terceiro
não..
pra mim

o terceiro é pra mim
só pra mim
é o último o recente o reticente

o terceiro vai me trazer
vou te acender

te acendi dentro de mim
o terceiro foi aquele que a tereza deu a mão

o terceiro foi aquele que a certeza deu a mão

pra você eu dou a minha mão
mas você não quer

e a lágrima veio
molhou meus olhos
mas não saiu

você não sai de mim
eu estremeço
eu te mereço

te suguei o mais forte que pude
e minha traquéia doeu

eu sinto muito
eu preciso muito
te pedir perdão

o que foi que eu estraguei dentro de você?
quero guardar as suas cinzas na caixinha
porque sou fênix
e só posso renascer das tuas cinzas

cigarro eterno de uma mente de lembranças
você ilumina
e até o sol pousou na minha janela quando você se foi
eu vou procurar você atrás das cortinas
não brinque assim de se esconder
eu quero te achar bem aqui
e se você não estiver
eu vou arrancar essas cortinas
nessa sina cega de surtar sem segredos

você molhou a minha boca
eu

eu
eu preciso eu quero
te espero se você precisa disso

eu estou me matando pra te proteger
eu estou chorando pra não te esquecer

quem é que vai me curar de você?
não deixe tudo pra eu fazer
não insista pra eu crescer

não peça pra eu trocar de roupa
me aceite do jeito que eu sou
eu não quero te mudar
só quero que você me deixe entrar

sem essa de deixar a porta aberta
eu quero que você carregue a chave

me despertaram de você, meu sonho lúcido
porque eu tenho essas coisas pra fazer

e estralei meu dedo sem querer
quando te amassei no cinzeiro

porque te apaguei
mas você tá aqui

e me mandaram uma mensagem
SAVE
me salva e me poupa
sempre um pouco
pra ter sempre mais

os seres e os sentimentos

os seres sem sentimento
e os seres que sentem demais
sentimentos variados se esvaziam
de um sentir sempre a mesma coisa invariável

os seres sem sentimento
e os seres que sentem demais
são seres de catavento
rodando pra dar cor ao movimento
do ar que pela força vão sendo usurpados

toda vez que eu amo alguém
deixo de amar um pedaço de mim
que era meu e eu não sabia
e não sabia que doía

não
eu não quero me repartir
eu prefiro preferir
escolher falsamente
o que vai o que vem
o que fica

e é assim que o ventre explode
com a maior sutileza do mundo
tudo o que eu não quis deixar sair
arrebenta as barreiras do que sou
e me faz estilhaços de mim
num espelho sem imagem em que me enxergo
inteira
intensa

é difícil encarar os avessos
é difícil descobrir-se ao contrário
é difícil ler palavras no espelho

ainda mais quando escritas com vermelho

profeta

eu nao sou profeta
porque não quero enxergar as imagens do futuro

eu simplesmente profiro palavras que ecoam o futuro no coração das pessoas

beijos e partos

chegou o momento
em que distribuo beijos
que se esforçam pra nascer
como em trabalhos de parto

dói em mim ver a vida que nasce da minha boca
sofro e choro com a tamanha brutalidade
com que sonhos entram e deslizam pela minha língua
de como esses sonhos de outros
precisam da minha saliva pra se umedecerem

e a força que trago nos dentes
faz do risco um rastro
de sangues e suores
manchando os lençóis

manchando o branco

e é apenas o choro primeiro da vida
aquele susto quando o ar invade os pulmões

e é a partir daquele corte com a casa que me protegia
quente e úmida como um beijo de corpo na alma
que eu sou obrigada a abrir os olhos
e a plenos pulmões
respirar ar puro

Thursday, December 07, 2006

Sem se adaptar

E eu precisava sair
E eu precisava ficar
E a gente se despede
na porta, na rua

Eu te amo
Me perdoa
Me entenda sem me entender
Me aceite
Não me peça pra me adaptar

Nosso egoísmo
Somos dois tiranos mimados
Tentando discordar

Mas a gente só concorda
Só acorda
Um do lado do outro

Não tente se adaptar
Tente apenas esquecer
o que te faz precisar pensar
o que te faz precisar escolher

Eu sinto tudo assim
sem explicação

Um prazer
Uma incerteza certeira
Nos acordes e nos versos de uma canção